O preço de tentar agradar todo mundo
Você concorda para evitar tensão, responde imediatamente e pede desculpas antes mesmo de falar? Aurora Lombrada investiga o preço de agradar todo mundo e o momento em que gentileza começa a virar autoapagamento.
Roteiro
Uma gata entra em um cômodo, escolhe o lugar mais inconveniente para sentar e não pede desculpas por ocupar espaço.
Um humano, por sua vez, entra em uma conversa e já começa a reformar a própria presença. “Desculpa incomodar.” “Desculpa falar disso.” “Desculpa mandar mensagem.” “Desculpa existir no mesmo planeta que você, espero que a minha respiração não tenha sido invasiva.”
Eu exagero, claro. Mas só um pouco. Porque muita gente aprendeu a fazer da própria existência um pedido de desculpas bem diagramado.
E isso costuma ser chamado de gentileza. Só que gentileza é uma coisa. Autoapagamento é outra. Uma deixa espaço para o outro existir; a outra acredita que só haverá paz se você desaparecer um pouco.
Ser querida é agradável. Eu entendo. Quando os humanos me chamam de linda e oferecem um lugar quente, eu também considero a possibilidade de permanecer no ambiente. Mas ser querida o tempo inteiro, por todas as pessoas, em qualquer circunstância, é uma missão impossível — e, em muitos casos, uma missão cara.
Cara em tempo. Cara em energia. Cara em verdade.
Você concorda para não criar tensão. Aceita um convite que não quer. Ri de uma piada que a diminuiu. Responde imediatamente para ninguém imaginar que você é fria. Faz mais do que pode para que ninguém pense que você é egoísta. Explica uma decisão simples como se estivesse perante um tribunal internacional.
No final, talvez as pessoas gostem muito de uma versão sua que está sempre disponível, sempre compreensiva, sempre pronta para acomodar os móveis emocionais da sala. Mas será que conhecem você? Ou conhecem o serviço de atendimento ao cliente que você instalou no lugar da sua personalidade?
A escritora e pesquisadora Sara Ahmed fala, em The Promise of Happiness, sobre como certos papéis sociais carregam a expectativa de produzir felicidade para os outros. A filha boa, a esposa boa, a colega boa, a mulher boa: todas costumam ser convocadas a manter a harmonia. E harmonia, no dicionário de muita gente, significa que ninguém precisa lidar com um “não” dito por você.
Mas um “não” não é um incêndio. Às vezes é só uma porta fechada porque você está cansada. Às vezes é um limite porque a sua agenda tem fim. Às vezes é uma discordância porque você possui opinião, essa atividade suspeita que tantos humanos acham charmosíssima até o momento em que ela contraria a deles.
O problema é que o desejo de agradar não nasce do nada. Para algumas pessoas, ele foi uma estratégia de segurança. Em ambientes imprevisíveis, prestar atenção no humor dos outros pode ter sido uma maneira de evitar conflito. Em famílias onde amor vinha misturado com crítica ou distância, talvez ter sido “fácil” parecesse o caminho para receber aceitação.
Então não vamos olhar para esse padrão com desprezo. Ele provavelmente tentou proteger você.
Só que uma estratégia pode sobreviver ao perigo que a criou. E, quando isso acontece, ela deixa de proteger e começa a mandar na casa.
Você já teve aquela sensação de estar cansada depois de uma conversa aparentemente normal? Talvez não tenha sido a conversa. Talvez tenha sido o trabalho invisível de monitorar cada frase, prever a reação do outro, evitar mal-entendidos, suavizar seus desejos, garantir que ninguém saísse dali com uma opinião desagradável sobre você.
Isso é exaustivo porque você está tentando controlar uma coisa que não controla: a interpretação alheia.
Você pode explicar com calma, escolher as melhores palavras, revisar a mensagem três vezes, colocar um coração, tirar o coração, deixar a mensagem neutra, pedir desculpas por uma palavra que ninguém havia notado. Ainda assim, alguém pode não gostar. E aí? Aí você continua sendo uma pessoa com direito a existir. Olhe só. A civilização não acabou. Nenhum planeta saiu da órbita.
Ser mal compreendida é desconfortável. Não vou fingir que é gostoso; seria uma mentira deselegante. Mas é diferente de estar errada. É diferente de ter sido cruel. É diferente de dever sua tranquilidade a quem decidiu interpretar tudo como ofensa.
Há uma distinção que vale guardar no bolso: consideração não é submissão. Consideração é pensar no impacto do que você faz. Submissão é tratar qualquer incômodo alheio como prova de que você falhou.
E algumas pessoas fazem questão de confundir as duas coisas. Elas chamam limite de frieza, recusa de ingratidão, autonomia de egoísmo. Não porque os conceitos sejam complicados, mas porque uma pessoa que se culpa com facilidade é mais fácil de conduzir.
Uma gata percebe isso cedo. Se alguém chama você para perto apenas quando quer alguma coisa, talvez não esteja oferecendo carinho. Talvez esteja tocando um sino.
O que fazer, então? Não é virar uma criatura brutal que responde a tudo com indiferença e fumaça dramática. Embora eu respeite a estética. É começar a praticar pequenas doses de honestidade.
Em vez de explicar demais, diga uma frase a menos. Em vez de responder na mesma hora, responda quando puder. Em vez de inventar uma desculpa impecável, tente uma verdade simples: “não vou conseguir”; “não quero”; “preciso pensar”; “isso não funciona para mim”.
Observe o que acontece no seu corpo quando diz isso. A culpa pode aparecer. O medo pode aparecer. Eles não precisam dirigir o carro. Podem sentar no banco de trás e reclamar da música.
Depois observe a reação das pessoas. Quem respeita você talvez se ajuste. Quem só gostava do seu excesso de disponibilidade talvez faça barulho. Esse barulho dói, mas também informa.
Você não precisa provar que é boa se tornando pequena. Pessoas boas também cansam, discordam, mudam de ideia, não atendem, não explicam tudo e, em casos extremos, preferem ficar sozinhas vendo a chuva em vez de participar de uma confraternização da firma.
No fim, ser querida é bonito. Ser inteira é necessário.
Que as pessoas certas gostem de você não apenas quando você é conveniente, mas também quando é nítida.
E que você pare de pagar, com a própria vida, a mensalidade de pertencer a todo lugar.
Se este vídeo te fez lembrar de uma situação, não precisa contar detalhes íntimos. Basta escrever nos comentários: “uma frase a menos”. Eu vou entender.
- AHMED, Sara. The Promise of Happiness. Duke University Press, 2010.
- BROWN, Brené. The Gifts of Imperfection. Hazelden, 2010.
- hooks, bell. Tudo sobre o amor: novas perspectivas. Elefante, 2021.
Ouça, salve, siga
Este episódio também existe em áudio. E a pergunta do dia continua no Instagram.
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